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asperezas

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1

domingo, 06 janeiro 2008 - 21:40

Fauna Angolana

Havia aqui um tema com mato que o bicho comeu. :rolleyes:

Nesse tema, mostrava um video-clip com uma luta entre búfalos, leões e até crocodilos, que não foi em Angola, mas podia muito bem ter sido.

Era este:



Dentro do género: christopheroue

asperezas

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2

domingo, 06 janeiro 2008 - 21:56

reencontro de velhos amigos



o abraço, e + aqui

asperezas

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3

domingo, 06 janeiro 2008 - 22:08

do "prof 2000"

"Cara Priminha,



Eu dou-te o eclipse total, minha toleirona. O que mais me fez rir é que quem ficou eclipsada foste tu, com essa gripe aristocrática e londrina. Creio que era preferível um londrino puro-sangue; sempre te fazia melhor companhia! Como certamente desprezaste os londrinos, agora tens que te contentar com a companhia dos medicamentos e dos lenços.

Quanto a mim, não tenho necessidade absolutamente nenhuma de classes britânicas. Basta-nos a companhia da Zaza, a macaca que um soldado trouxe para o destacamento.

A Zaza é pouco maior que um esquilo. Apesar de arisca e amiga de morder toda a gente, no primeiro dia em que para cá veio, tornou-se de tal modo meiga e afeiçoada a nós, que é um regalo brincar com ela. Mal nos vê, não descansa enquanto não nos trepa para o pescoço. Quando está presa, ao passarmos por ela, põe-se a guinchar e a levantar os bracitos, para que lhe façamos festas na barriga e nos sovacos. Só põe fim a uma guincharia dos diabos depois de a soltarmos e vir para cima de nós. Então, fica uma melada incrível e toda se derrete, quando lhe começamos a fazer festas na ponta do nariz.

Há pouco tempo, estive com ela ao colo e analisei-a minuciosamente do ponto de vista anatómico. É incrivelmente semelhante ao bicho homem. É quase tudo igual, apenas em ponto mais pequeno. Quando lhe fiz festas na ponta do nariz, agarrou-me os dedos com a mão pequenina, igual à de uma criança. Até as impressões digitais são parecidas com as nossas.

Mas nem tudo tem sido uma maravilha com a Zaza. Ela é um pouco como as mulheres e as crianças mimadas. Quando a pomos no chão, desata logo numa enorme guincharia de protesto, agarra-se-nos às calças e não nos quer deixar ir embora. Neste aspecto, fez-me lembrar alguns episódios da minha infância. Quando queria alguma coisa e o meu pai não ma dava, desatava numa choradeira e berreiro tais, que era capaz de aguentar uma tarde inteira. Só parava quando, já cansados de me ouvirem, acabavam por ceder à minha vontade.

Um destes dias, zanguei-me bastante com ela. Caí na patetice de a trazer para a messe. Sua excelência resolveu fazer macaquices nos fios da electricidade que não temos, por avaria do gerador. Começou por fazer uma valente limpeza nas teias de aranha do tecto. As infelizes das aranhas bem que tentavam escapar! A Zaza era mais rápida. Deitava-lhes a mão com uma incrível velocidade e as desgraçadas nem tempo tinham para respirar! Eram enfiadas pelas goelas abaixo. Pelos vistos, as aranhas constituem um petisco para os nossos parentes macacais. No final da limpeza às aranhas, a nossa destruidora de teias pendurou-se no fio onde temos o candeeiro. Mandou-o ao chão e reduziu-nos o vidro e a manga de combustão a pedaços.

A dieta preferida da macaquita não são as aranhas. Gosta de muitas outras e boas coisas: chocolates, rebuçados, bananas, amendoins, etc. Tudo o que comemos e nos dá prazer é também bom para ela. Não é nada esquisita nas ementas e muitos menos nas gulodices.

Não é só a macaca que gosta de gulodices. Também nós por cá nos deliciamos com fruta variada, com ananases enormes e bananas de várias qualidades. E quanto a amendoim, é coisa que não nos dão, se o pedirmos. Se nos quisermos deliciar com um fino e um prato de amendoim, teremos de pedir o fino com ginguba. Se pedires amendoins num café, dizem-te logo que não têm. Mas ginguba é quanta quiseres.

Perguntas-me, na tua carta, se eu ainda me lembro do Valentim, um moço de Aveiro que costumava alinhar connosco nos convívios de fim de semana. Efectivamente, lembro-me perfeitamente do Valentim. Por acaso, as miúdas das sanzalas até já me perguntaram diversas vezes por ele. Estão com imensas saudades! O que lhes vale a elas é que, felizmente, temos cá diversos valentões, que substituem o Valentim com grande vantagem.

Perguntas-me também como são as viagens que faço na região. As viagens de reconhecimento e de abastecimento aos destacamentos não são duras. Duros são os assentos dos unimogues, as viaturas do exército em que viajamos. Fazem-nos criar calo no cu, como no macaco, salvo seja. Mas como o exército ainda não se lembrou de mandar almofadar os bancos onde nos sentamos, vamos tendo que aguentar.

Perguntas-me também, a certa altura da tua carta, se há muitas moças nesta região. Infelizmente, as moças aqui não são como as formigas, porque se fossem, teríamos cá muitas e variadas e picantes. Devo acrescentar que quando me refiro a moças, estou a pensar em moças como as daí da Metrópole. Dessas não há cá. Mas rosas negras e viçosas há-as em abundância, para quem gostar. Algumas são até bastante simpáticas e interessantes, embora nem sempre muito olorosas. Mas que algumas são sedutoras e de seios bem feitos, esta é a realidade.

Para mal dos meus pecados, já há tempos me piquei nos espinhos de uma rosa negra, o que me fez andar durante uns dias por Quimbele, a frequentar periodicamente a enfermaria. Felizmente que o físico resistiu bem e os antibióticos produziram um rápido efeito. E eu aprendi uma grande lição: nunca mais me deixar enfeitiçar por Circes negras, que podem ser tão ou mais perigosas que a Circe que deu problemas a um antepassado meu homónimo.

Perguntas-me ainda se cá na região há muita bicharada. Claro que há! Bicharada é coisa que aqui não falta. Bicharada de todos os tamanhos e feitios e para todos os gostos. Tudo aqui é grande e variado, à semelhança deste enorme continente africano. Só para ficares com uma ideia da grandeza da bicharada, vou tomar como referência um animalzinho inofensivo e simpático, bom conselheiro do Pinóquio, que enche as nossas tardes e noites de Verão com um canto estridente mas agradável. Estás a ver o tamanho dos grilos que animam o Verão e costumamos guardar nas gaiolas, para encherem as nossas casas com os seus trinados, melhor dizendo, com os seus «crinados»? Pois os grilos daqui só apresentam o triplo do tamanho dos daí! E não penses que exagero. São enormes! Tão grandes, que os pretos até os assam na brasa e os consideram um grande petisco. Os desgraçados nem se podem dar ao luxo de encher os ares com os seus «crinados», porque assim que fazem ouvir o cri-cri, denunciam a localização e acabam por ficar «crixados». Lixam-se ou tramam-se bem com os «crinados», acabando assados e comidos pelos nativos. Fiquei deveras surpreendido quando descobri esta ementa tão apreciada pelos nativos. Nunca tinha imaginado que os desgraçados dos grilos pudessem ser considerados como um petisco de grande categoria! E não são apenas os grilos uma das ementas mais apreciadas. Também os ratos que andam aqui no destacamento e apanhamos com ratoeiras fazem parte da ementa nativa. São esfolados e assados sobre as brasas.

Já agora, imagina também o tamanho das baratas, lagartos, ratos e outra bicharada que por aqui abunda. Tudo é grande neste grande continente! São grandes os bichos, as distâncias e os problemas! Por exemplo, quando vais a algum lado e perguntas a alguém se o local que pretendes alcançar ainda fica longe, dizem-te que é já ali. E o pior é que andas horas e mais horas e o já ali continua lá longe. Só ao fim de muito tempo e de teres desistido de perguntar se ainda é longe é que chegas ao local pretendido. Tudo é grande neste abençoado e vasto continente! ..."



"...A cabra do mato não é uma cabra vulgar, como as que conhecemos na metrópole. A expressão designa um animal da família dos veados. É talvez uma espécie de gazela, cuja estatura é aproximada da das cabras, embora maior, razão pela qual terá levado o nome por que é conhecida. Não tenho aqui nenhum livro onde possa esclarecer-me sobre o assunto. Tudo o que sei, pelas conversas tidas com os nativos, é que se trata de uma espécie animal muito abundante na região, cuja carne é saborosíssima. ..."


Extractos de Cartas de um miliciano (romance em construção) de Henrique J. C. de Oliveira.

asperezas

Não registrado

4

domingo, 06 janeiro 2008 - 23:35

Os meus bichos - o camaleão

Não tive muitos bichos, em Angola. Aliás, em Luanda! Porque em Angola, só saí de Luanda em alguns fins de semana...

Foram parar às várias casas onde morámos, alguns bichos.

Na Praia do Bispo, tínhamos um quintal com algumas árvores e plantas.
Acho que era numa goiabeira ainda pequena (talvez com 2 metros de altura) que morava um camaleão, vindo de onde só ele sabia...
Uma irmã minha, deu-lhe um nome engraçado e pouco vulgar, Serafim, acho...
O bicharoco, muito lento, deixava-se apanhar com alguma facilidade. Mas assustava-se! Tínhamos de ser muito cuidadosos e meigos...
Um dia desapareceu para sempre...

No Algarve há muitos camaleões que já lá vivem em estado selvagem.
Foram levados por antigos residentes de Angola e adaptaram-se muito bem ao novo clima.
Quase todos os que "emigraram" para outros locais de Portugal, não tiveram a mesma sorte...