A minha mãe (ou) a tua...

    • A minha mãe (ou) a tua...

      A esta hora já deve ter chegado ao Porto. Foi directamente daqui ao norte
      de Portugal por causa da minha irmã, que a acompanha. A minha irmã fez
      recentemente uma operação e ainda não estava completamente
      recuperada, daí a viagem directa ao norte. O avião para o Porto só sai daqui
      às Segundas Feiras, penso.

      A minha mãe passou aqui comigo os últimos seis meses. Geralmente vem cá
      passar o Natal e regressa ao Minho em Março, mas desta vez prolongou-se
      um pouco mais.

      Com oitenta anos de idade, a mãe age e parece mais jovem do que eu.
      Aproveito os tempos que ela aqui passa para lhe sacar um pouco mais da
      sua história. Noutras alturas não me foi possível sacar dela nada sobre os
      mistérios de sua vida. Talvez porque ela não estivesse disposta a dize-lo, ou
      porque eu também não tinha paciencia para a ouvir, quem sabe. Mas nos
      dias de hoje, ela fala e conta com prazer as peripécias da sua juventude.

      O seu berço foi pobre. Nos montes minhotos passou os seus primeiros vinte
      anos numa escravatura típica de família. Enquanto os irmãos iam à escola e
      se preparavam para um futuro mais brilhante, ela sendo mais nova e mulher
      ia o dia inteiro para o monte tomar conta das cabrinhas e das ovelhas. Sim,
      a minha mãe foi pastora e por vinte anos viveu numa serenidade total,
      falando com o vento, com as ovelhas e lobos (que ainda existiam naquele tempo).

      Vestia uma saia do avesso e aos Domingos vestia-a ao contrário para poder
      ir à missa, o único privilégio que a família lhe permitia. Uma madrinha que se
      preocupava com o seu futuro lá lhe ia proporcionando algumas coisitas às
      escondidas dos irmãos. Uma delas eram alguns dos livros onde a minha mãe
      na montanha, sua escola da vida, foi aprendendo a ler e a escrever por si,
      letra a letra, palavra a palavra, pois queria desvendar os mistério que a biblia
      continha.

      Aos vinte anos resolveu que era altura de mudar de rumo, apanhou a
      camioneta para Lisboa e só muitos anos mais tarde voltou a visitar o Minho.
      Para ela ir de Cabaninhas para Lisboa teria sido talvez como ir de Lisboa à
      India numa aventura desconhecida e emocionante e ao mesmo tempo
      aterrorizante. Mas a curiosidade e a vontade era mais poderosas do que o
      medo que a acolhia... e ela lá foi.

      Claro que em Lisboa acabou por conhecer um outro Minhoto, o meu pai e
      acabaram por imigrar para Angola, onde uma nova vida de trabalho e
      dedicação lhes esperava.

      Mãe, espero que tenhas tido uma boa viagem e... volta outra vez.

      Tony Araújo :)

      Author @ Amazon .... Tony de Araujo
    • RE: A minha mãe (ou) a tua...

      Mulher rija, a tua mãe! ;) Tenho a certeza que os tempos que ela passou pelos montes com as cabras e as ovelhas a ensinaram a sabedoria de vida que ela contém.

      Já vou contar a história da minha mãe. Antes, vou dar-vos conta da história de famílias ricas:

      Vi ontem uma entrevista a um filho e a uma neta das famílias mais ricas do mundo ( o herdeiro do império farmacêutico J&J e a neta do segundo homem mais rico do mundo - o primeiro é o Bill Gates). Enquanto um vive confortavelmente com o dinheiro da família, mostra através dos seus filmes (One Percent esteve recentemente no festival de Tribeca) a história das famílias ricas, como chegaram à riqueza, como vivem, etc, mau grado a famíla que prefere viver sem dar muito nas vistas. Já a outra, a neta, é uma simples pessoa da classe média que teve que lutar pela vida. O avô sempre fez questão que todos na famíla deveriam lutar pelo seu lugar ao sol.
      Moral da história: há cada vez mais uma grande separação de classes : ricos e pobres e o mais interessante é ter percebido que actualmente, tal como quando a tua mãe era criança, as pessoas trabalham muito, mesmo muito para serem ricas. Já eu acredito que pode-se ter muito dinheiro e ainda assim as pessoas serem pobres. Há aqueles que nasceram num lar cheio de amor e os outros que nasceram em lares cheios de dificuldades. Uns aprenderam a partilhar outros aprenderam a ser egoístas porque vivem no medo de tudo perderem. Estas são para mim, as classes sociais mais importantes. Não há ricos nem pobres, mas sim gente que ama ou que tem medo de amar.
    • RE: A Minha Mãe!

      Olho-me ao espelho e não a vejo
      Sempre fui “a cara de meu pai” – até no feitio: calada, antipática
      Assim me apresentava, a minha avó materna, às pessoas amigas.
      A minha mãe – não!, nada parecida comigo.

      Era bonita, elegante e alegre, muito alegre! Ah, e cantava muito bem. Eu – não tenho voz nem para gritar!
      Ela – chegou até a ser convidada para cantar em Salões Reais daqueles tempos. Cantava Amália como ninguém! Ainda me lembro…

      Lembro-me particularmente do Barco Negro e, como eu tinha aversão a esse fado…Não sei dizer a razão, pois actualmente até gosto dele mas, recordo-me perfeitamente dela o ter deixado de cantar a meu pedido: << Mãe, não gosto dessa canção. Tenho medo!>>
      Medo, metia-me medo…não sei porquê! Talvez por ser triste.
      A dança era outra área na qual se movimentava à vontade e em perfeição.
      Aí já a revejo nos meus passos. Não danço como ela o fazia mas, adoro dançar!

      Olho-me ao espelho e…não a vejo mas, os gestos – os gestos são os mesmos. Há quem diga que o sorriso é o mesmo, há quem diga até que “sou a cara da Maria e alegre como ela”.

      Há quem até se atreva a dizer que, sou divertida e bonita como ela…

      Não, não sou! Não é mais do que vontade, de verem em mim, a Maria que partiu deste mundo bem cedo, apesar de amar tanto a vida!
      Hoje, tenho precisamente a mesma idade com que ela me deixou…

      Olho-me ao espelho e…continuo sem a ver mas, vejo-a nos meus gestos e nos valores morais que mantenho desde que mos transmitiu!

      No sorriso…?, talvez!
      Mas continuo sem a ver reflectida no espelho, sempre que a ele me assomo…

    • RE:Barco Negro...

      Ontem, quando vi a peça da RTP 2 sobre o David Mourão Ferreira, voltou à cena o Barco Negro:

      De manhã, que medo que me achasses feia,
      acordei tremendo deitada na areia.
      Mas logo os teus olhos disseram que não!
      E o sol penetrou no meu coração. (...)

      David Mourão F.


      Início dos anos 40, mesmo sem gostar de fado, entrega nas mãos de Amália este lindo poema...( agora acho-o lindo)

      O tal, que a minha mãe tanto gostava...sinceramente desconhecia ser dele este poema!

      Fora do contexto mas aproveitando a "onda" do Barco Negro, digo-vos que gostei imenso do trabalho da RTP2 sobre o David. Já não me lembrava dele tão desfigurado...sempre mantive a imagem dele quando estava bem de saúde!

      Houve uma frase dele que focaram que, quanto a mim, diz tudo o que ele estava a sentir nos últimos anos: << Agora que estou doente, tenho aprendido o valor dos pequenos instantes...>>

      Porque não nos damos conta disto, enquanto há saúde e todo o tempo do mundo à nossa frente...?

      A minha mãe, dizia algo com o mesmo sentido : << Para quê tanta guerra, se tudo se resume a...nada!>>


      No vento que lança areia nos vidros;
      Na água que canta, no fogo mortiço;
      No calor do leito, nos bancos vazios;
      Dentro do meu peito, estás sempre comigo.



    • Pois a minha mãe vem de volta! Telefonou ontem dando-me três semanas para modificar a
      casa à boa maneira portuguesa, deixar de comer pizzas e burgers e começar a armazenar
      batatas, frutas, hortaliças e sardinhas congeladas... prontos, lá se vai a minha dieta à lá tóni balóni! :rolleyes:

      So long lunchs with my friends! Agora é comer como um bom burguês , digo Português!

      :P :P :P :P :D :D :D

      Author @ Amazon .... Tony de Araujo