Recordando O Caminho De Ferro E A Sua Origem

    • Mas o CFB também era:





      - EUCALIPTOS: 95 MILHÕES!!! -


      Um dos aspectos mais impressionantes do C.F.B. e que mais fàcilmente nos dá uma ideia da grandeza da Companhia, é o da plantação de eucaliptos.

      Dizer que se tratava da maior plantação particular do Mundo deveria ser já suficientemente expressivo, mas talvez seja melhor o titulo da segunda maior plantação do Mundo.

      Só na Austrália - a pátria do Eucalipto - existia uma plantação maior, que era património e orgulho da nação. Logo a seguir vinha a do C.F.B.: noventa e cinco milhões de pés !

      Noventa e cinco milhões é um número dificilmente concebivel. Na práctica correspondia a serem muitos. Tantos que eram eles que dominavam a viagem, do Cubal a Teixeira de Sousa. Abria-se a janela do combóio e lá estavam eles, os ramos oscilando lentamente ao sabor do vento.

      Para quê tantos, afinal ?

      Principalmente porque essa era a melhor forma de garantir o futuro. Num só ano as locomotivas do C.F.B. percorriam mais de sete milhões de quilómetros. Para isso era necessário combustivel. Por isso, lá estavam os eucaliptos. Eram eles que faziam andar os combóios.

      Muita gente pensava - e nós pensávamos também - que a lenha tinha sido posta de parte como combustivel dos Caminhos de Ferro por ter perdido na competição com o fuel, o gasóleo ou mesmo o carvão. Na Europa, onde os Caminhos de Ferro atingiram um alto expoente, a lenha estava realmente posta de lado. Sucedia apenas que uma só razão estava na origem de tal facto; a Europa não tinha lenha para alimentar os seus Caminhos de Ferro. E o C.F.B. tinha.

      Simples na verdade. O custo médio por quilómetro, a lenha, rondava os quatro escudos e cinquenta centavos. O gasóleo ultrapassava já os seis escudos, o carvão quase chegava aos dez escudos, e o fuel ultrapassava os quinze escudos. Isto para um rendimento semelhante, claro, o que colocava a madeira como um excelente combustível para qualquer Caminho de Ferro.

      Isso mesmo sabiam os que iniciaram a plantação de eucaliptos. Uma plantação que teria que ser grandiosa para pôr a Companhia a salvo de qualquer contra-tempo. Lembremo-nos que, por exemplo, só em 1964 foram consumidos 366.795 toneladas de lenha.

      Os seus eucaliptos podiam-se considerar no C.F.B. uma aventura dentro de outra grande aventura. Nunca em qualquer parte do Mundo se tentou plantar tão grande número de pés em tão pouco tempo. Todas as complicadas operações que iam da forçagem das sementes, passavam pelos pré-viveiros e depois pelos viveiros, e nem sempre terminavam na plantação da jovem árvore, exigiam grandes investimentos em material e em mão-de-obra. E eles foram realizados.

      Continuavam, ainda no nosso tempo a sê-lo, apesar dos tempos heróicos terem passado. Plantar num só ano quinze milhões de pés ( o que nunca foi emitado em qualquer outra parte do Mundo ) já não era, no nosso tempo, necessário. Mas a chama sagrada continuava a ser alimentada.

      Entre um e dois milhões de pés continuavam a ser anualmente plantados. Os eucaliptos do C.F.B. continuariam a ser a nota dominante para quem nele viajasse. Eles eram um pouco como o sangue dum organismo complexo que, sem ele viveria pior.


      CARINHO PARA GIGANTES

      « Terminaram agora o seu período de pré-viveiro. Eram ainda crianças frágeis que necessitavam de cuidado e carinho.
      As mãos fortes que os colheram da terra quente sabiam perfeitamente que dentro de poucos anos elas seriam mais dois gigantes entre muitos.
      Mas agora eram apenas duas plantas indefesas que qualquer gesto brusco mataria.
      Por isso, o plantador, as pegava com carinho.
      Com Ternura.
      Assim se fizeram quase cem milhões de árvores »
    • O QUE SE ESCREVEU E DISSE SOBRE O CFB NOS ANOS 70


      « No ano 2001, o Caminho de Ferro de Benguela passará - na sua totalidade - para a posse do Estado Português. Sem qualquer encargos, sem o mais pequeno dispêndio. Transcorridos os 99 anos da concessão da exploração da linha, haverá uma transmissão de poderes. Um simples acto que fará com que Portugal entre na posse dum património hoje avaliado em 2 milhões e meio de contos.

      Trinta e cinco anos nos separam desse momento. No entanto parece-nos oportuno recordar todos os beneficios que a construção daquela linha já nos trouxe, e os muitos que ainda há a esperar até lá. Se não, recordemoa:

      Da sua construção e exploração regular surgiram - pode-se afirmá-lo - quase todas as cidades e vilas que a ele se acolheram, originando uma esteira de vida, que é a mais importante de Angola.

      As aquisições necessárias à exploração, realizadas no comércio local, contribuem decisivamente para a sua existência. Recordemos que, em 1964, mais de 95 mil contos de produtos de toda a ordem foram comprados em Angola, enquanto que no estrangeiro se gastaram apenas 44 mil contos ( tudo o que se não pode encontrar, por enquanto, entre nós ).

      Em dividendos, contribuições e impostos o C.F.B. pagou ao Estado, em 1964, 64 mil contos.

      Para a balança de pagamentos da Provincia, anualmente, com cerca de 200 mil contos.

      Além dos 1.348 Quilómetros de linha - inteiramente balastrada a brita, existem ainda 301 quilómetros de desvios e ramais, dos quais se destaca o ramal do Cuima. Sessenta e seis quilómetros que ligando a vila Robert Williams às minas de ferro do Cuima, drenam o ferro daquela importante exploração mineira.


      MÚTUA VANTAGEM


      Tudo reverterá inteiramente para o Estado Português. Não por qualquer espécie de magnanimidade, evidentemente, e sim por força de um contracto que, em boa hora estabelecido, tem sido cumprido escrupulosamente por ambas as partes. Alguns atritos houve, evidentemente. Erros de intrepretação nas obrigações e direitos de cada parte têm levado,por vezes - felizmente poucas - a situações melindrosas. Natural e humano. Não é dado a todos os homens o dom de visionarem, e compreenderem,projectos e contractos que excedam a duração da sua própria vida

      Mas tudo se tem resolvido airosamente. Todas as dificuldades se têm aplainado. Por isso mesmo este fabuloso contracto que, ao longo do mais agitado e turbulento século da história do homem, tem sido exemplo de mútua vantagem, pode mostrar ao mundo quanto pode ser profícua a colaboração baseada no respeito, e na honestidade de processos.


      52 ANOS À ESPERA


      Daqui a trinta e cinco anos tudo nos pertencerá. E embora isso signifique a posse, sem encargos, de uma empresa já agora com um património tão elevado, não será isso o mais importante. Porque dois milhões e meio de contos pouco significarão se mal aplicadas.

      Tal como a mesma nota tem valor diferente na mão de um perdulário ou de um agiota, também os grandes capitais podem significar prosperidade ou simples malbaratar.

      O importante é que nos será entregue uma empresa com uma preseverança e uma ousadia raras. Imaginada por accionistas que só cinquenta e dois anos após a formação da Companhia receberam dividendos. Uma empresa planificada desde o primeiro momento para ser grande.


      NAS MÁS HORAS


      Por isso é agora rentável. Criadas todas as estruturas nas mais duras condições,o C.F.B. pode olhar o futuro com tranquilidade. Uma acção social eficaz ( mais tarde nos referiremos a este aspecto empromenor ), oficinas gerais grandiosas, garantido o combustivel com a maior plantação particular de eucaliptos do mundo, o C.F.B. não cruzou os braços, disposto a colher agora os frutos conseguidos em tantos anos de sacrficio. Muito continua a ser feito. Ao longo dos 1.348 quilómetros a palavra de ordem é melhorar o que existe.

      Mas a fase mais dura já passou. Os anos heróicos foram vencidos.

      Apesar de, quando tal se torna necessário, a mesma aguda visão que esteve na origem desta obra grandiosa, voltar a revelar-se. Tal como aconteceu em 1961, quando - perante o pasmo de tantos - o C.F.B. iniciou a construção do dispendioso ramal do Cuima.

      É na hora das dificuldades que os homens - e as empresas - se revelam.

      Na zona de influência do Caminhode Ferrode Benguela, o Combóio é rei absoluto. É dele que depende o pão de 15.000 familias, o que já é muito. Mas é também dele que depende a prosperidade de toda aquela zona.

      Exactamente porque dois terços das suas receitas provêm o transporte de minérios ricos de Catanga, as tarifas internas podem ser notàvelmente baixas. De tal forma baixas que certo tráfego interno não dá compensação. Pense-se na diferença que é carregar todo um longo combóio com minério, e trazê-lo - sem incómodos ou preocupações - ao longo dos 1.348 quilómetros, e transportar 50 quilos de morangos, sessenta ou setenta quilómetros.

      Porque é grande, porque é rentável, porque está bem estruturado, o C.F.B. pode contribuir decisivamente para a economia de toda uma vasta região, que se estendeao longo de quatro distritos.

      Um atrito aqui, uma incompreenção acolá, originam por vezes um ou outro descontente. Mas a esmagadora maioria sabe que do combóio depende a vida e a prosperidade. Que sem ele o seu mundo seria diferente.

      Por isso os meninos preferem o combóio para seus brinquedos, e desenham-nos - com longos penachos de fumo - olhando-os através da janela da escola. É, de alguma forma, uma homenagem que lhe fazem. E também o desejo inconfessado de um dia poderem subir para a enorme locomotiva, rasgarem o ar com umapito longo e partirem, comandando o combóio, na grande viagem. Uma viagem que os levaria a atravessar Angola. »
    • O CAMINHO DE FERRO DE BENGUELA - ANOS 70

      ( Excerto de um jornal da época )


      « Foi há mais de meio século. Há quase 64 anos, para ser mais exacto.

      Chegaram simples e decididos. Traziam com eles hábitos diferentes, maneiras diferentes de encarar a vida e os seus problemas. Traziam com eles uma missão: construir um Caminho de Ferro que ligasse o litoral de Angola à fronteira Leste.

      Dos que desembarcaram na estreita lingua de areia, deserta e inóspita que era então o Lobito, quantos se terão apercebido da enormidade da tarefa ? Quantos a teriam tomado apenas como mais um trabalho de rotina ?

      Com eles traziam tudo. Não só as casas pré-fabricadas onde iriam viver, mas também os móveis que iriam utilizar. Não só conhecimentos e experiência, mas também os estiradores onde iriam planificar, o papel onde iriam desenhar, as punaises com que prenderiam o papel.

      Se o Lobito ainda não existia, Benguela pouco mais era do que uma vila sonolenta, sob vento quente. Nada estava previsto para apoiar uma obra da grandeza da que os homens louros se propunham vir construir. Angola podia apenas olhar, espantar...e ter esperanças.

      Por isso eles trouxeram tudo. Não só as entãopoderosas máquinas, mas também o minusculoprego. E os vidros das janelas. E os lençóis ainda húmidos do nevoeiro inglês.

      E então o Lobito animou-se.

      Na estreita faixa de areia surgiram casas. E nas casas trabalhava gente que dava ordens e exigia acção.

      E então, de toda aquela irrealidade, algo de concreto começou a surgir. De inicio eram apenas dois traços de ferro que começarama avançar pelo areal; irmãos siameses obstinados mas hesitantes que evitaram os primeiros obstáculos e continuaram. Alcançaram Benguela, sempre olhando o mar como que nele buscando a tranquilidade do elemento conhecido. Depois respiraram fundo e mergulharam para o interior.

      O Caminho de Ferro de Benguela ia ligar o litoral à fronteira leste de Angola!
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      Ainda hoje causa espanto e obriga à reflexão.

      Como puderam aqueles homens enfrentar e vencer uma tal obra ? Como puderam eles - quando a Provincia pouco ou nada lhes podia fornecer - lançar um Caminho de Ferro como este ? Que estranha força os possuia para os levar - em menos de duzentos quilómetros - do nivel marítimo à altitude de mil metros ? Que determinação era a sua para continuarem a subir, galgando morros, evitandoprecipicios, avançando sempre,lutando sempre ? Qual seria a sua expressão quando começaram a estender a linha através da imensa anhara ? Quilómetros e quilómetros sem ver uma casa, sem encontrar um apoio. Suando sob o calor tórrido, patinhando na lama das inundações, tremendo de frio quando o ar se faz agreste. E lentamente a dupla fita de ferro ia avançando.

      Lá longe, na Europa, a vida mudara. À « belle epoque » sucedera-se a sede de reinvidicações. Quando em 1914 a guerra devorava homens e capitais, mais de quinhentos quilómetros separavam as duas extremidades da linha. O ABRUPTO LÉPI FORA GALGADO.

      Veio o pós-guerra e o seu cortejo de dificuldades. Até 1924 o Caminho de Ferro parecia adormecido e exausto. Mas apenas ganhava forças. De súbito, novamente se lança na corrida impressionante através do planalto deserto. Chega a Silva Porto. Salta sobre o Cuanza, corre livre pela desolada anhara e chega bfinalmente ao fim; um rio estreito de águas barrentas. Apenas mais um acidente geográfico fácil de dominar para os seus braços de 1348 Quilómetros de extensão. Mas chegara ao fim. Do outro lado era o Congo.
    • Mas a História do Caminho de Ferro de Benguela ainda continua. Senão, vajamos....


      ... EM MAIS UMA ORGANIZAÇÃO IMPECÁVEL O CAMINHO DE FERRO DE BENGUELA INAUGUROU O RAMAL ROBERT WILLIAMS - CUIMA ( transcrição de um Jornal da época, ou seja 9 de Agosto de 1962 )



      « Que pena sermos obrigados pelas limitações de espaço e tempo, a apertar em meia dúzia de linhas o relato de um acontecimento que, já pela sua importância, já pela dignidade com que decorreu, merecia colunas de boa prosa!

      Digamos desde já que a cerimónia com que se inaugurou oficialmente o Ramal do Cuima foi impecável em todas os aspectos; que a beleza e amenidade do dia retocou de brilho a dignidade da cerimónia; que o elemento feminino imprimiu cunho de elegância a todo o conjunto; que a lembrança daquele dia perdurará no espirito de quantos delas participaram e no da muita gente que presenciou o acto inaugural.


      TAPETE DE FERRO E MILHO


      Quando de Nova Lisboa chegou a Robert Williams o combóio com os convidados, o largo da Estação estava hordado de gente. Frente ao edificio um tapete curioso, tecido ao natural: uma camada de minério de ferro miudinho, de onde sobressaíam em alvura rebrilhante as letras C.F.B. escritas com milho.

      S. Exª o Governador Geral, apeou-se do automóvel cerca das 9 horas e, após os cumprimentos ouviu perfilado os primeiros acordes de " A PORTUGUESA ", tocados por uma charanga de nativos ali postada.

      Pouco depois, arrancava o combóio inaugural, cuja locomotiva rebrilhava, enfeitada com escudos, galhardetes e testões de seda. Estacou no triângulo de ligação ao novo troço. O local estava irrepreensivelmente limpo. Ao sol claro, tremulavam bandeiras. À volta, cordões humanos encaixilhavam o belo quadro.

      Em discurso que reproduzimos no próximo número, o Director Geral do Caminho de Ferro de Benguela abriu a cerimónia.


      HOMENAGEM A UMA GRANDE COMPANHIA


      Caladas as palmas com que foi acolhido o discurso do sr, eng. Augusto Bandeira, falou o gen. Venâncio Deslandes. Depois de sublinhar a importância que atribuia às vias de comunicação, sublinhou que o ramal do Cuima abria perspectivas mais amplas a " este previlegiado Planalto, onde tudo se reune para um largo e esperançoso futuro no campo agro-pecuário "

      Depois, acresecentou textualmente:

      " Reconheço o grande esforço e o importantíssimo papel que o Caminho de Ferro de Benguela tem desempenhado no fomento de Angola e acho também do maior interesse o que o sr. Director Geral do C.F.B. assinalou, de o ramal partir precisamente da Caála - terra que tomou nome do grande impulsionador desta formidável obra que é o Caminho de Ferro de Benguela ".

      Com tesoura apresentada por uma filhinha do Insp. Cruz Soares, S, Exª cortou a fita verde e vermelha, entre muitas palmas de quantos assistiam.

      Depois, o Insp. Martins Lopes, Chefe do Departamento de Informação e Propaganda do C.F.B., leu em voz forte o Auto de Inauguração, logo depois assinado pelas entidades mais representativas, tendo-o feito os demais durante a viagem que logo depois se iniciou, no combóio que levou às minas do Cuima cerca de 200 pessoas.

      No Cuima, foram visitadas as instalações da Mineira, cujo Director eng. Sampaio Nunes fez um discurso de saudação aos visitantes e de explanação do que é a obra da sua Companhia.

      No percurso de regresso foi servido almoço aos convidados - mais de 160 pessoas. O serviço decorreu por forma que podemos considerar notável, dadas as circunstâncias.

      Em Robert Williams, o sr. Governador Geral desceu do combóio e seguiu em automóvel até ao aeródromo de Nova Lisboa, onde tomou o avião que o levaria a Luanda, tal como a comitiva.

      Entretanto o combóio prosseguia até Nova Lisboa, onde chegou cerca das 16 Horas. Todos vinham radiantes pela forma como tudo tinha decorrido
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