Recordando O Caminho De Ferro E A Sua Origem

    • Recordando O Caminho De Ferro E A Sua Origem

      Resolvi inserir este assunto que, juntamente ao das Criações das Missões, pelo Monsenhor Keilling, foram os dois grandes impulsionadores do desbravamento do Planalto de Benguela. Assim, junto a um apeadeiro do CFB logo surgia uma povoação que se ia desenvolvendo e, as Missões logo iam tratando de educar aqueles povos. Espero que seja do vosso agrado


      O CAMINHO DE FERRO DE BENGUELA - ANOS 70

      ( Excerto de um jornal da época )


      « Foi há mais de meio século. Há quase 64 anos, para ser mais exacto.

      Chegaram simples e decididos. Traziam com eles hábitos diferentes, maneiras diferentes de encarar a vida e os seus problemas. Traziam com eles uma missão: construir um Caminho de Ferro que ligasse o litoral de Angola à fronteira Leste.

      Dos que desembarcaram na estreita lingua de areia, deserta e inóspita que era então o Lobito, quantos se terão apercebido da enormidade da tarefa ? Quantos a teriam tomado apenas como mais um trabalho de rotina ?

      Com eles traziam tudo. Não só as casas pré-fabricadas onde iriam viver, mas também os móveis que iriam utilizar. Não só conhecimentos e experiência, mas também os estiradores onde iriam planificar, o papel onde iriam desenhar, as punaises com que prenderiam o papel.

      Se o Lobito ainda não existia, Benguela pouco mais era do que uma vila sonolenta, sob vento quente. Nada estava previsto para apoiar uma obra da grandeza da que os homens louros se propunham vir construir. Angola podia apenas olhar, espantar...e ter esperanças.

      Por isso eles trouxeram tudo. Não só as entãopoderosas máquinas, mas também o minusculoprego. E os vidros das janelas. E os lençóis ainda húmidos do nevoeiro inglês.

      E então o Lobito animou-se.

      Na estreita faixa de areia surgiram casas. E nas casas trabalhava gente que dava ordens e exigia acção.

      E então, de toda aquela irrealidade, algo de concreto começou a surgir. De inicio eram apenas dois traços de ferro que começarama avançar pelo areal; irmãos siameses obstinados mas hesitantes que evitaram os primeiros obstáculos e continuaram. Alcançaram Benguela, sempre olhando o mar como que nele buscando a tranquilidade do elemento conhecido. Depois respiraram fundo e mergulharam para o interior.

      O Caminho de Ferro de Benguela ia ligar o litoral à fronteira leste de Angola!





      Ainda hoje causa espanto e obriga à reflexão.

      Como puderam aqueles homens enfrentar e vencer uma tal obra ? Como puderam eles - quando a Provincia pouco ou nada lhes podia fornecer - lançar um Caminho de Ferro como este ? Que estranha força os possuia para os levar - em menos de duzentos quilómetros - do nivel marítimo à altitude de mil metros ? Que determinação era a sua para continuarem a subir, galgando morros, evitandoprecipicios, avançando sempre,lutando sempre ? Qual seria a sua expressão quando começaram a estender a linha através da imensa anhara ? Quilómetros e quilómetros sem ver uma casa, sem encontrar um apoio. Suando sob o calor tórrido, patinhando na lama das inundações, tremendo de frio quando o ar se faz agreste. E lentamente a dupla fita de ferro ia avançando.

      Lá longe, na Europa, a vida mudara. À « belle epoque » sucedera-se a sede de reinvidicações. Quando em 1914 a guerra devorava homens e capitais, mais de quinhentos quilómetros separavam as duas extremidades da linha. O ABRUPTO LÉPI FORA GALGADO.

      Veio o pós-guerra e o seu cortejo de dificuldades. Até 1924 o Caminho de Ferro parecia adormecido e exausto. Mas apenas ganhava forças. De súbito, novamente se lança na corrida impressionante através do planalto deserto. Chega a Silva Porto. Salta sobre o Cuanza, corre livre pela desolada anhara e chega bfinalmente ao fim; um rio estreito de águas barrentas. Apenas mais um acidente geográfico fácil de dominar para os seus braços de 1348 Quilómetros de extensão. Mas chegara ao fim. Do outro lado era o Congo.
    • RE: Recordando O Caminho De Ferro E A Sua Origem

      Foi a Roberto Williams, um notável africanista, director da Companhia dos Caminho de Ferro de Benguela, nascido em Aberdeen, Escócia, em 1860, a quem se deve toda a organização deste projecto. Iniciou os seus estudos no colégio "Gymnasium" da sua cidade natal, de onde passou para a Universidade de Aberdeen, onde concluiu o curso de Engenharia de Minas, partindo, logo a seguir, apenas com 21 anos de idade ( 1881 ), para a África do Sul.

      Aí, exerce a sua profissão nas minas de diamantes de Kimberley, região mineira do Vaal, na colónia do Cabo, Griqualand de oeste.

      Logo ali, começou a evidenciar o seu ousado espírito realizador, o que o tornou conhecido de Cecil Rhodes. Este, já então eleito deputado procurando pôr em práctica o plano que a sua ambição visionava que seria, o Caminho de Ferro directo da cidade do Cabo até ao Cairo.

      Roberto Williams tornou-se num íntimo colaborador de Cecil Rhodes, com quem trabalhou durante mais de vinte anos, que o encarregou de proceder a várias pesquisas na região do Zambeze, tão bem conhecida do Mário e do Henrique e, desta expedição de Roberto Williams proveio a recomendação de se construir o Caminho de Ferro da Beira.

      Esta linha, viria pela Bechuanalândia e atingiria Bulavaio, em 1897.

      Cecil Rhodes, apesar disto, não abandonou o seu sonho de ligar a cidade do Cabo ao Egipto e, pouco depois, Roberto Williams era encarregado, por ele, de proceder a novas pesquisas mineiras mais a norte, investigando os terrenos entre o Zambeze e o Congo, já desbravados pelos exploradores africanistas portugueses.

      O resultado destas pesquisas foi a descoberta dos maiores jazigos de cobre de toda a África: o Copper Belt, na Rodésia do Norte e, a Catanga no Congo Belga.

      Para permitir o transporte deste mineral até à costa, através do território inglês, tornava-se necessário prolongar a linha férrea que, saindo da cidade do Cabo se dirigia ao Cairo e, por isso, Roberto Williams procedeu, imediatamente, aos trabalhos da sua extenção, desde Broken Hill até ao Congo Belga, alcançando consequentemente os productos da Rodésia e o valioso mercado mineiro da Catanga , criando assim, um importante aumento de tráfego ferroviário.

      Mas, os jazigos da Catanga estavam situados à fabulosa distância de 2735 quilómetros do porto da Beira, na provincia de Moçambique, que era ainda o mais próximo, em comparação com a distância de Catanga à cidade do Cabo.

      Além disso, se o Caminho de Ferro não tivesse interesses na mina, esta, na opinião de Roberto Williams, ficaria à mercê da tarifa que lhe fosse imposta para o transporte do minério até ao Oceano e, por muito baixa que essa tarifa fosse, o frete ferroviário viria sempre a representar uma sobrecarga insuportável para o preço do cobre.

      Roberto Williams compreendeu, então, que para o desenvolvimento da mina só restava uma solução; encontrar outro escoante que assegurasse uma comunicação com o mar, mais curto e directo do que a que lhe era facultada pela linha férrea principal do Cabo ao Cairo ou pelo ramal que o Caminho de Ferro do porto da Beira lhe poderia fornecer...
    • RE: Recordando O Caminho De Ferro E A Sua Origem

      Olá, Jorge


      Conheceste em Benguela o Engº Carlos Pinto Basto da Costa Ferreira????



      Olá, Isabel

      Eu não estive ligado ao CFB a não ser por intermédio de meu pai que era, em Nova Lisboa, o chefe do departamento de Florestas, área da contabilidade. Infelizmente, já cá não está entre nós para lhe fazer essa pergunta. O nome Pinto Basto não me é de todo estranho, não podendo relaccioná-lo com o CFB. Talvez falando com a minha mãe possa dizer alguma coisa.

      Um Beijinho
    • RE: Recordando O Caminho De Ferro E A Sua Origem

      ...Além disto, das cinco zonas do Mundo, África foi a última a receber a civilização cujo avanço os grandes desertos do Saára e da Líbia, verdadeiros oceanos de areia que de oeste a leste, ao norte dela se estendem, interceptaram, atrazando a sua penetração para o Centro e para o Sul.

      Aqueles desertos não ofereciam incitamento a qualquer grande industria que, como bem preconizou Livingstone, teria sido o meio de levar a civilização a África.

      A demonstrar que isto assim seria foram as descobertas mineiras de Kimberley, do Rand, da Rodésia, seguidas da que talvez possa ser considerada a " maior de quantas se têm feito, a dos jazigos de cobre do Catanga ".

      Pertence aos Governos, como um dever de boa administração, a construção de estradas e de pontes. Mas, as descobertas de minas, exigindo facilidades de meios de transporte que ponham os seus productos em contacto com os mercados mundiais, conduzem, por sua vez, à execução dos grandes planos de Caminhos de Ferro, quer prolongando as existentes, quer construindo linhas novas, quando aquelas já não garantem uma económica saída para o mar.

      A grande linha férrea que saindo da cidade do Cabo, seguindo através da África Central se dirigia ao Cairo, deixou de ser uma remota possibilidade mas, o seu prolongamento por sucessivos lances foi obedecendo às exigências do desenvolvimento industrial das regiões servidas por esse Caminho de Ferro.

      No entanto, à medida que a construção do Caminho de Ferro do Cabo ao Cairo prosseguia em direcção ao norte, a distancia entre o seu terminus e o mar, aumentava.. Assim as regiões mineiras, no interior, reconhecendo que o Cabo da Boa Esperança já não poderia fornecer-lhes uma passagem económica para o mar, viram-se forçadas, cada uma por sua vez, a procurar outras vias de comunicação.

      Com base em tudo isto, Roberto Williams concluiu que tal linha de comunicação teria de se estender na direcção Ocidental, através dos jazigos de cobre, pela divisória Congo - Zambeze, até qualquer ponto da costa do Atlântico, na província de Angola.

      A linha, efectivamente, teria de seguir o velho caminho dos escravos, a antiga estrada comercial do interior de África à costa, que ligava o Congo com Benguela, estrada essa que nós percorremos, eu até ao Bié e o Matos Neves e o Daniel, do Bié para o interior e que, fundada pelos portugueses no sec. XVI, atingiu um grande desenvolvimento nos finais do séc. XVIII, mas que a supressão da escravatura fez declinar, apesar de estar intimamente ligada à história das grandes explorações geográficas realizadas no último quartel do séc.XIX...