Nova Lisboa - E.A.M.A.

    • Nova Lisboa - E.A.M.A.





      27 de Janeiro de 1973 - Sábado

        A camioneta da E.V.A. (Empresa de Viação de Angola) faz-se ao caminho cheio de mancebos que iam para a E.A.M.A. (Escola de Aplicação Militar de Angola) sediada em Nova Lisboa para o curso de Sargentos Milicianos. 650 Km era a distância entre a asa da mãe e o "nascer" de um novo ser independente.

      EVA
      Camionetas da EVA


        Chegamos por volta das 5h30m da tarde e a chover, vejam lá o nosso azar (durante a semana a chuva foi uma constante), fomos separados por companhias. Um capitão, de quem já não me lembro o nome, à nossa chegada disse que era bom irem para a companhia dele pois era uma companhia só para homens. Segundo o que mais tarde me disseram, esse capitão fez parte de um grupo que, no ataque aos acampamentos dos guerrilheiros, abriam a porta das cubatas ao pontapé, só que um dia houve um azar, as portas estavam armadilhadas e ele viu morrerem alguns soldados, a partir daí nunca mais se recompôs e enviá-lo para a E.A.M.A. foi o melhor recurso. De uma forma ou de outra acabei por não ficar nessa companhia.

        Distribuídas as dormidas, no dia seguinte foi a vez de formar à civil, à chuva, e levantar o fardamento. Tivemos um companheiro que teve que fazer a instrução durante duas semanas com a roupa civil pois não havia fardamento que lhe servisse tal era o arcaboiço dele.

      EAMA
      Em 1960 ainda não tinha o A final


        A minha companhia era composta por dois ladrões, um sargento e um capitão. Chegados ao fim do mês o pré era de tal maneira ridículo que nem dava para um baleizão (gelado).

        Pela primeira vez, que eu saiba, houve um levantamento de pré (isto em 1973), e todos nós recusámos receber o mesmo. O capitão viu o caso mal parado e tentou “comprar” os nossos líderes, enviando-os ao sargento e este à boca do cofre quis comprá-los só que aquela companhia não era uma companhia qualquer, já soprava os ventos da mudança e à recusa lá tiveram que abrir os cordões à bolsa. Ironia do destino, anos mais tarde, já eu estava em Cabinda, foi este Capitão que levou o Zeca, Adriano, Fausto e outros Cantores de Intervenção até ao Cinema Chiloango onde eu tive o prazer de cantar em pleno palco, de braço dado com o Zeca «Grândola, Vila Morena», a «Cantiga é uma arma» e tantas outras baladas que ouvia em surdina em Nova Lisboa e lá no interior do mato vegetal de seu nome Maiombe.

        A recruta foi o que se esperava. Como tinha sempre praticado desporto os exercícios não eram por demais, e aos vinte anos o corpo aguenta tudo. Na lagoa dávamos os nossos “mergulhos”, com arma, camuflado, botas e chafurdávamos na lama onde os porcos chafurdavam também. Lembro-me que um dia todo eu era lama, fui para debaixo do chuveiro fardado com arma e tudo. Depois de limpa a arma e cartucheiras às duas horas estava-me a deitar e às 5e 30 a levantar para mais um dia de instrução. Velhos tempos.

      lagoa
      A lagoa lá ao fundo


        Ao fim-de-semana a tentativa ou para ir até à cidade ou até Luanda. Alinhadinhos havia a revista para ver se estava tudo nos conformes. Cabelo curto mas com “pelugem” no pescoço, sapatos engraxados mas que a uma pisadela deixavam de estar, barba feita, mais que feita, mas que ao passar de um papel fazia o ruído característico era o suficiente para se dizer adeus à saída.

        Com o tempo iríamos aprender a contornar essas dificuldades e quase sempre à noite fazíamos um giro até à cidade.

        E o tempo foi passando, aprendemos a sobreviver comendo o que a natureza dava, éramos largados à noite em locais inóspitos e através das estrelas, de uma bússola e de um mapa lá tínhamos que chegar ao quartel. Saídas do quartel e correr por essa Nova Lisboa fora e as miúdas a olhar para aqueles rostos de crianças feitos homens.

        Tiros e mais tiros na carreira de tiro para aperfeiçoar a pontaria. Havia na minha companhia um companheiro que tinha um problema, levantava a perna e o braço do mesmo lado. Não sei como o conseguia mas certo é que tinha esse problema. Na carreira de tiro o alvo dele estava sempre sem buracos, o alvo do companheiro ao lado tinha mais buracos que o normal, quando no fim da recruta saiu a listagem dos aprovados lá estava o nome dele como aprovado para… «Básico». Muito ele chorou.

      portico
      No pórtico


        A 14 de Março a injecção "cavalar" que íria tentar nos colocar imunes contra todo o tipo de doenças. Todos em fila de "pirilau", vinha um enfermeiro colocava a agulha na omoplata e outro seringava o líquido. Alguns caíam desmaiados logo ali, outros, com essa injecção, acabaram por ficar doentes.

        15 de Abril de 1973 fim da recruta, dia do Juramento. Na parada, com tacos enfiados no chão a servirem de guia para a coreografia que iríamos fazer, o nosso pelotão cantou em plenos pulmões a canção que nos uniu durante aqueles três meses.

      HINO AO 3º PELOTÃO

      Cabelo ao vento,
      Vontade forte,
      Alegria de viver,
      3º grupo, vai a passar,
      “Água-Viva” a comandar.
      

      Já lá vamos, Para a sessão, Cabeça erguida, G3 na mão, Progredindo, sempre em corrida, A ti amigo, dá-mos a mão.

      Não desanimes, ó camarada, Pois a recruta, está acabada, 3º grupo, sempre a marchar, Muitas saudades, irá deixar.

      Canta comigo, esta canção, Ela é mensagem, de paz e amor, É a palavra, a oração, É o campo de trigo em flor.


      aspirante – Godinho (Água-Viva) furriel – Seguier cabo-milic. – Ribeiro
    • Nova Lisboa - a Cidade



        Cidade virada para o progresso, onde não faltam monumentos e jardins e onde todos os dias se levantam novas estruturas para novos prédios. A característica desta cidade é a falta de movimento. É muito pacata, uma cidade onde a limpeza impera e embora não tendo praias tem outras belezas nos morros que a circundam.

        Escrevi isto sobre Nova Lisboa em 1973.

        A ideia inicial quando conheci Nova Lisboa, era de uma cidade pacata demais para o meu gosto habituado ao bulício da cidade de Luanda. Meses mais tarde não queria outra coisa. Apaixonei-me por esta cidade.

        Nos fins-de-semana, quase sempre, hospedava-me na «Pensão Mimo», creio que se situava perto de umas bombas de gasolina numa rua paralela ao Ruacaná. Depois com o tempo passava-os no Hotel Turismo. Lembro-me de me levantar, ir para a varanda do Hotel e sentir o pulsar da cidade a “acordar”. O tempo, esse, era magnífico. Ao contrário do clima de Luanda quente e húmido, em Nova Lisboa o tempo era fresco e quase sempre havia uma neblina matinal e como eu gostava de sentir o fresco da manhã ali naquela varanda.

        Os cinemas a que ia frequentemente eram ao “Ruacaná” e ao “Cine Estúdio 404” (dizia na altura que era mais ou menos o estilo do Cinema S. Paulo no Bº S. Paulo – o meu bairro - em Luanda). Francamente 34 anos passados já não sei situar esse cinema em Nova Lisboa.

        A melhor casa de modas, a “Nova York”, com diversas secções cada uma apresentando os seus artigos (escrevi que eram como os “Armazéns do Minho” da baixa de Luanda).



        Um jardim que muito frequentava era o Jardim da Praça Salazar perto do Ruacaná onde passava horas a ler (comprava os livros na “Livraria Lello”), onde haviam umas árvores que “pingavam”. Um camarada disse-me que eram conhecidas por “árvores choronas”. Choronas ou não, era um jardim muito bonito, como eram quase todos os jardins desta cidade, com uma fonte, a «Fonte Luminosa», com um espectáculo de luzes ao anoitecer.



        O Restaurante que muito frequentei, estava situado mesmo em frente a este jardim, era o “Koringas”. Ali tomava as minhas refeições.

        Também fui algumas vezes até ao Restaurante “Imbondeiro”.

        “Se alguém passar a vosso lado e vos segredar em vós de desânimo procurando convencer-vos de que não podemos manter tão grande império expulsai-os do convívio da Nação”.

        Palavras de Norton de Matos fundador da Cidade de Nova Lisboa, que se encontravam inscritas na coluna do monumento a ele dedicado na Praça Manuel Arriaga.

        As figuras de mulher esculpidas no monumento representam um dado atributo ao fundador desta cidade: Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança.



        Em frente ao monumento eram os Correios (belo edifício).

        Na imagem em baixo do lado esq., uma escola do Ensino Secundário na Rua 5 de Outubro rua que nos levava ao Ruacaná. No jardim, no lado dto, havia uma Gelataria chamada “Veneza” onde os estudantes esgotavam o stock de semi-frios rapidamente. Havia também o Himalaia onde, além dos gelados, tinha um bom vinho verde e muitas imperiais lá bebi.



        Haviam dois mercados Municipais, um na cidade Alta com uma arquitectura moderna...



        … E um outro mais antigo na Praça Vicente Ferreira (com um Monumento muito bem conseguido). Um mercado bem mais pequeno e com poucas bancas de venda no seu interior.



        Havia uma piscina do “Club” du Chemin de Fer como diz aqui o meu postal, ou seja, a Piscina do “Ferrovia” piscina que nunca frequentei. Já bastavam os banhos na lagoa lá no quartel.



        Nova Lisboa era uma cidade jardim. A Estufa-Fria perto do jardim Américo Tomás era de visita obrigatória e eu, claro, estive lá.



        Bairros de Nova Lisboa tinham nomes de Santos, S. Pedro, S. João (este era muito conhecido ), outros eram o Bº do Benfica, Académico, do C.F.B., Cavalo Branco mas um dos Bairros que me lembro bem era o Bº Bom-Pastor perto do Mambroa (campo do Benfica do Huambo). Perto do bairro havia um bosque frondoso com pinheiros onde corria uma brisa fresca e suave (escrevi isto na altura). Era ali que muitas vezes a tropa descansava a “piquenicar”.
      Faço referência também ao “Estádio de Cacilhas” no Bairro do Cacilhas, foi lá jogar o Boavista em 29 Abril de 1973.

        Fazia-se por lá, uma feira onde a diversão imperava, com carrinhos de choque, carrosséis e umas boas febras se comiam nas barracas de comes e bebes, ainda lá perdi 50 “paus” num jogo que não me lembro qual.

        Em 7 de Abril de 1973 escrevia-a eu: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

        Um ano e alguns dias depois mudaram-se os tempos, as vontades eram de continuar num país que tinha espaço para todos. Infelizmente assim não aconteceu e, a Nova Lisboa que conheci, foi derrubada ao som de tiros e morteiradas. Hoje só resta a lembrança.



        Nesse mesmo mês, fui para os «Comandos» em Luanda, nunca mais voltei a Nova Lisboa.

    • RE: Nova Lisboa - O vídeo

      Obrigado pelos momentos recordados....
      Apesar de não ser natural desta bela Cidade, por aqui passei de 59 a 65 como
      estudante (C.A.H.),e mais tarde em Janeiro 68 fiz na EAMA o CSM, tendo depois, em Abril, seguido para Luanda para Transmissões Engenharia.

      Um abraço do tamanho do Mundo a todos quantos amaram aquela terra...
      Castela Simões
      (monajamba)
      Monajamba