O último ano em Angola

    • O último ano em Angola

      O último ano em Angola

      O último ano em Angola foi muito confuso, cheio de aventura e pouco claro sobre o que se iria passar em seguida, especialmente para os jovens que, como eu, não tinham noção da situação politica internacional.

      Este ano tenho-me sentido muito da mesma forma. Para começar, o comercio está praticamente parado. A minha industria, leasing e instalação de impressoras de alta velocidade e fotocopiadoras está praticamente estagnada. Trabalho não me falta em questão de assistência técnica mas só os clientes que têm contratos de manutenção já pagos é que vão chamando. Os outros vão aguentando até às últimas. Quando alguém se decide a comprar novo equipamento não são aprovados pelas companhias financiadoras por falta de disponibilidade de fundos. Quando finalmente aparece alguém a comprar a dinheiro, o equipamento está esgotado com promessas de recessão que continuam a ser adiadas pelas distribuidoras que me fornecem. Resumindo, não há nada para ninguém. Faz-me lembrar o último ano que estive em Angola.

      Lembro-me que o tabaco acabou na cidade da Gabela. Eu e o meu amigo Rui Figueiredo pegamos na mini-Honda dele e fomos visitar as roças de café mais remotas comprando o resto do tabaco que eles ainda tinham nas suas lojas. Assim que chegávamos à Gabela vendíamos os cigarros de imediato por um preço exorbitante. Ficava esgotado na hora.

      Alguém tem memórias para contar?

      Author @ Amazon .... Tony de Araujo
    • RE: O último ano em Angola

      O meu último ano em Angola foi, como seria de esperar, cheio de expectativas. Tinha nove anos, sabia que o nosso destino seria Portugal. Portugal esse que eu imaginava igual às ilustrações que havia nas latas de chocolates da Macintosh, damas antigas, charretes, enfim tudo a que a imaginação de uma criança tem direito.

      Para o meu pai, como para todos os adultos que dedicaram uma vida de trabalho e sacrificios a Angola, foi muito difícil decidir-se a partir. Para o pressionarmos, íamos para a varanda da nossa casa à noite, e quando os meus pais já estavam deitados, estouravamos fitas de fulminantes com uma pedrita, na esperança de que ele se assustasse e se decidisse de uma vez por todas a partir.

      Por fim deixamos o Chinguar, rumo a Nova Lisboa, juntamente com uma tia materna, o marido e os três filhos, eramos onze no total. Aí vivemos um tempo enquanto aguardavamos pelo nosso voo na ponte aérea. O nosso era o Voo 404. Como é óbvio, as carências já se notavam muito. Lembro-me de irmos à confeitaria Nandinha e comprarmos bolos porque havia dias em que não tinham pão. O pior eram os meus primos que já mais cresciditos, e fumando à sucapa, se viam à nora para arranjar um cigarrito.

      Saímos de Nova Lisboa, no dia em que o Savimbi anunciou que, até ao meio-dia desse dia, todos os angolanos que pretendessem deixar Angola teriam de o fazer. Eramos todos à excepção do meu pai que nessa altura tinha ido a Moçamedes despachar o carro, cuja venda, mais tarde nos valeu para recomeçar a nossa vida. Os que eram angolanos fugiram para o aeroporto de Nova Lisboa, onde estivemos fechados durante 11 horas num hangar até que, por fim, encontramos no meio da imensa multidão o meu pai que nos procurava.

      Não guardo rancor nem ódios, guardo sim recordações.

      Renata
      renata peixoto
    • RE: O último ano em Angola

      Eu estava bem caladinha pensando... sera que sou so eu? Sera imaginacao minha? Tal como o Tony estou vivendo certas circunstancias este ano como o ultimo em Angola....compro? Nao compro? Fico? Vou? O que se ira passar com tanto sacrificio feito ate agora? Muitas vezes parece uma luzinha entre o passado e o presente.
      O meu ultimo ano em Angola foi sempre cheio de duvidas e no meio de tudo acho que havia sempre uma esperanca de a minha casa poder voltar. Hoje pergunto a mim mesmo muitas vezes....e se la tivesse ficado?? Apenas um desabafo.

      Melhores dias virao :so NINI
      Ana Maria Costa
    • RE: O último ano em Angola

      O meu ultimo ano em Angola, começou muito bem.Em Março fomos de férias a Benguela,e depois pegamos na estrada e fomos por ai fora até Luanda, onde jogamos no Totobola e ganhamos 10.000 escudos.Que festa!Foram umas férias de borla!Mal sabia eu o que me esperava quando voltei de férias.Estava a trabalhar no Governo do Distrito do Cunene, quando no dia 25 de Abril cheguei ao serviço e vi todo um alvoroço! Toda a malta feliz!Como se devem lembrar, só ouviamos as noticias pela rádio.Eu não sabia o que se passava.Perguntei e lá me explicaram que se tinha dado uma revolução em Portugal e que nós (Angola) ia ser independente!
      Eu sem saber o que pensar (pois só tinha 0s meus 22 ingénuos anos)e o que aquilo queria dizer... Sentei-me e instalou-se no meu peito uma tristeza que ainda hoje não sei de onde veio, talvez só mesmo o meu sexto sentido.Comecei a chorar no meio daquela alegria toda! Mais tarde todos me deram razão , era realmente para chorarmos não para festejar!
      A verdade é que a 22 de Julho lá arrumei as minhas imbambas e rumei em direcção ao Sudoeste Africano como refugiada politica.
    • O último ano em Angola

      O meu último ano em Angola foi muito conturbado.
      Vivia em Luanda no Bº Salazar que era em grande paryte rodeado por quarteis portugueses, mas entre o Bº o o sitio onde trabalhava; Hospital Universitário junto ao Hospital de S. Paulo, passava pelas delegações dos três movimentos de libertação, (MPLA,FNLA e UNITA), que não se entendiam e se guerreavam uns aos outros na ância de tomada do poder.
      Havia dias que era um inferno chegar ao Hospital com balas vindas não se sabia de onde, quantas vezes ao chegar havia de tudo pelos corredores mortos, feridos e sangue pelo chão.
      O Hospital era quase todos os dias atingido por balas que furavam os vidos, sempre pensei que um vidro atingido por uma bala se partisse todo, mas não ficavam apenas os buracos do tamanho das balas. por duas vezes foi bombardeado tendo morrido um colega que trabalhava no 2º andar.
      Eu trabalhava mesmo á entrada e eu e minhas colegas chegamos a andar de cócoras pois havia balas a bater na frontaria do prédio, após o bombardeamento fomos durante uma semana para o Hospital Maria Pia,
      após o exercito ter garantido a segurança do Hospital voltamos mas tudi tinha sido saqueado até as fotos de familiares que alguns tinham nas secretárias tinham desaparecido.
      Por duas vezes chegou ao hospital o boato de que grupos armados corriam em direcção ao Bº Salazar para tomarem as casas, eu desesperada pois a minha filhinha con um ano ali ficava com uma vizinha
      lá pedia autorização e pegava no carro e ía ver da minha menina, graças a Deus das 2 vezez não passou de boato, (Omeu carro chegou a ser atingido por uma bala e pedras).
      Foi um mau bocado, Luanda naquela altula era um inferno, todo o dia e toda a noite era passado ao som de tiros e bombardeamentos, o que valia por um lado era a falta de noção de como utilizar o material bélico que lhes foi metido nas mãos nem sei por quem porque quando começaram a chegar a Luanda não tinham armamento quase nenhum e o que tinham estava absoleto, então de noite era um autentico arraial porque eles usavam balas tracejantes e a maior parte disparadas para o alto quando caiam já era por força da gravidade, os bombardeamentos a maior parte não faço ideia de onde caíam, nuna casa perto de min caiu ama granada de morteiro mas foi no quintal não fez qualquer vitima.
      as casas mortuárias estavam a abarrotar de corpos de tal maneira que na do Hospital Maria Pia já nem os punham lá dentro estavam vários pelo chão cá fora, era um cheiro insuportável.
      Perante esta insegurança no inicio de agosto de 75 resolvi mandar a minha bébé, na altura já com 2 anos, para Portugal com uma irmã do meu marido, mas as saudades daquele pedacinho de gente que era toda a minha vida não me largavam e em fins de setembro, já grávida do meu 2º filho, vim para Portugal num avião da Força Area pois que um cunhado meu ali era militar.
      Meu marido ficou veio para assistir ao nascimento do filho mas passadas 2 semanas de cá estar recebemos a noticia de que a nossa casa tinha sido ocupada por um qualquer militar das Faplas e assim resolvemos não voltar para Angola para grande desgosto nosso.


      Zézita
      Maria Jose Mendes Leitao e Vasconcelos de Carvalho