Minhas crónicas

    • Minhas crónicas

      Escrever as memórias é o desejo de qualquer um de nós que quer divulgar e compartilhar com outras pessoas as vitórias e derrotas que teve neste País de gratas recordações chamado ANGOLA e também no novo País que adotamos. Com este propósito coletarei tudo quanto escrevi, neste espaço de todos nós, aberto para aqueles que queiram participar.

      Luís M.Soares
    • Olá Luís Martins Soares,

      Recortes e anotações como as que planeia escrever ficarão vincadas na net para as novas gerações.
      Um dia eles ficarão agradecidos pelo que se vai escrevendo sobre o nosso passado e o nosso presente.
      Claro que nós também gostaremos de ler e por isso fico à espera de mais.

      Grande abraço!
      tony araujo

      Author @ Amazon .... Tony de Araujo
    • Minhas memórias

      Nasci no Bairro da Maianga no dia 08 de Julho de 1934 . Consta na minha Certidão de Nascimento que fui baptizado pelo Padre Abílio da Costa Reis Lima no dia 23 de Junho de 1935 às 23 horas e 20 minutos, filho legítimo de António Maria Soares, cabo de Polícia de Segurança Pública, natural da Freguesia de Águas Santas, Concelho de Póvoa de Lanhoso, Distrito e arquidiocese de Braga e de sua esposa Dona Irene Veiga Martins Soares, doméstica, natural da cidade de Benguela, desta diocese, etc, etc..
      Fiz questão de transcrever parte da minha Certidão de Nascimento porque as minhas origens refletiram-se ao longo da trajetória das fases da minha vida.

      Vi a luz do dia em que a parteira chamada e contratada pelo meu pai ajudou o parto da minha mãe, em casa. Comum na época esse tipo de procedimento.

      Meus pais nos criaram com muitas dificuldades pois éramos 4 filhos e para melhorarem um pouco o orçamento familiar tinham sempre nalgum canto do quintal uma área onde cultivavam vários tipos de verduras e legumes que com o produto da venda davam um pouco mais de desafogo no pagamento das despesas.
      Fiz o curso primário na Escola José Anchieta e por coincidência tive como professora a mesma senhora que lecionou no Asilo D. Pedro V, para a minha mãe.
      Minha mãe, natural de Benguela, ficou órfã com poucos anos de idade e os tios dela tomaram a decisão de a mandar para Luanda a fim de ser internada no Asilo D. Pedro V administrado por freiras. Só de lá saiu após o casamento com o meu pai. Ela foi sempre revoltada com essa situação pois me parece que tinha direitos de herança que foram desviados pela família.

      Tanto eu como os meus irmãos só podíamos calçar sapatos ou sandálias quando saíamos de casa para algum evento ou nas nossas deslocações para a escola. Durante o dia, para poupar os solados tínhamos que caminhar descalços. Os meus pés estavam tão calejados que por vezes caminhava em cima de arbustos espinhosos sem me causar qualquer mau estar.

      Na escola era obrigatório o uso de bata branca, sapatos também brancos, quedes da Macambira ou sandálias da mesma cor. Na parede posterior às mesas dos professores havia obrigatoriamente pendurado um retrato de Salazar. A entrada na sala era feita de um modo ordeiro e com a chegada do professor/ora a turma de pé entoava o hino nacional. Feita a chamada dava-se início às aulas acompanhadas, quando necessário, por reguadas nas palmas das mãos com “a menina de cinco olhos”, puxão de orelhas ou com pancadas na nuca ou orelhas com a vara comprida. A palmatória era confeccionada em madeira com uma peça circular provida de cabo que agarrado pelo algoz direcionava o golpe para a palma das mãos dos alunos.
      Os orifícios, normalmente 5, na parte circular atenuavam a resistência do ar e com isso o golpe era mais contundente. Os pais dos alunos orientavam os professores a praticarem essa espécie de castigo para aqueles que tirassem más notas ou tivessem alguma conduta reprovável.
      Alguns alunos levavam de casa um farnel para ser comido no recreio, aqueles que ainda tinham esse privilégio o faziam mas outros infelizmente, ficavam olhando os colegas comerem mas de vez em quando havia alguém que sorrateiramente se aproximava de quem tinha o lanche e dava uma palmada nas costas da mão sendo o lanche projetado para o ar e logo em seguida era agarrado pelo contendor e comido.

      Popilas! Faço um pequeno esforço para recordar estes factos.

      Enquanto as meninas brincavam de cabra cega, jogavam pedrinhas, pular a corda, etc., os rapazes jogavam futebol, as bilhas , pião, etc..

      As makas entre alunos eram resolvidas fora da recinto da escola e automáticamente formava-se um ajuntamento em volta dos contendores.
      (Continua)
    • Minhas memórias

      Aprendi a ler pela Cartilha Maternal de João de Deus. Meu pai que tinha uma escrita bonita em uma folha de papel escrevia com o lápis o abecedário e frases soltas obrigando-nos a decalcar o que tinha escrito. A minha letra é inclinada e regular devido a esse processo de aprendizado.

      Quando regressávamos da escola para casa ou vice versa, normalmente passávamos no lado lateral esquerdo do Hospital Maria Pia após descermos uma rampa em terra desembocavamos em uma área onde havia árvores de tambarinos que comíamos de vez em quando, fruta de sabor ácido. No local apareciam lagartos grandes de tonalidade verde. Eles ficam ao sol para regular a temperatura do corpo e após levantarem a cabeça com a chegada de algum intruso deslocavam-se com velocidade para o tronco da árvore subindo-a.

      Quando morávamos no Bairro da Maianga a caminhada era fácil, pior quando fomos para o Morro da Maianga cuja caminhada era bastante penosa subindo o morro debaixo do sol escaldante e palmilhando no areal do musseque. As solas dos pés ardiam com a temperatura alta da areia.
      Após cumprimentarmos os pais o próximo passo era tirar os sapatos ficando descalços no restante do dia.
      À tarde o lanche servido era de pão com manteiga, outras vezes farinha de pau misturada com açúcar, mas esta mistura servida num copo se fosse adicionada um pouco de água ela engrossava e depois de digerida tínhamos a sensação de estomago cheio. Outras vezes comíamos ginguba misturada com farinha de mandioca e açúcar batida no pilão mistura chamada de quiquerra.
      O matete também fazia parte do lanche e era um composto de papas de massa de farinha cozida adoçicada com açúcar.

      Na hora do banho, nos períodos de frio , uma lata com água era aquecida e depois de derramada certa quantidade num balde misturava-se água fria até ser atingida a temperatura ideal para o banho.
      O balde de chapa zincada tinha um chuveiro no fundo. A passagem da água do balde para o chuveiro era controlada por um contrapeso cônico munido com um vedante de borracha que quando acionado fechava ou abria a passagem sendo controlada por uma corda. Pendurava-se esse balde no teto, onde uma corda passando por uma roldana o baixava ou o erguia para a posição de banho. Entenderam ?.
      Já que nos encontramos nesse ambiente chamado de casa de banho ou W.C. aproveito para relatar mais alguns pormenores. Durantes anos o chamado rolo de papel higiênico era substituído pelo jornal que cortado em pedaços de mais ou menos 15 cm x 20 cm eram pendurados num gancho de arame. Para melhorar o efeito de limpeza no uso do dito era recomendável amassar as folhas. Para a lavagem das mão e banho usava-se preferencialmente o Sabão Lifebuoy.
      Após o banho passava brilhantina no cabelo para o deixar lustroso e cheio de “banga”.
      A fim de ficarmos protegidos do paludismo, todos os dias antes do matabicho tínhamos que tomar 1 comprimido de quinino e durante alguns anos assim fizemos.
    • Minhas Memórias

      Mocidade Portuguesa:

      Pertenci à Mocidade Portuguesa a partir dos 7 anos até aos 18 anos.Todos os sábados, obrigatóriamente comparecíamos na concentração ,respondíamos às chamadas de presença e logo em seguida começavam as atividades como exercícios físicos, marchas militares, saudação à Bandeira e cânticos à Organização. O nosso uniforme compunha-se de camisa verde com distintivo pregado no lado esquerdo, calção ou calça de cor bege, meias de cano alto até um pouco abaixo do joelho e sapatos castanhos.
      Na fivela do cinto um S cromado destacava-se. Nós tínhamos por costume recitar o significado dessa letra que era: Sou salazarista sem Salazar saber; se Salazar soubesse suicidava-se.
      Mais tarde, dos 16 anos aos 18 anos, ingressei na Milícia da Mocidade Portuguesa, espécie de braço armado da Organização. Aprendi a manejar armas, tive aulas na Carreira de Tiro e pratiquei vela. O nosso Comandante foi o então capitão Camilo Augusto Rebocho Vaz, mais tarde como Tenente-Coronel nomeado Governador Geral de Angola. Deslocávamos até ao Quartel onde funcionava o Curso de Sargentos Milicianos, na Cidade Alta e perto do Palácio do Governo, se não me falha a memória. Este aprendizado na Milícia foi bastante proveitoso para mim porque quando já como aluno do Curso de Sargentos Milicianos o Tenente instrutor colocou-me à frente do pelotão para ensinar o manejo de armas.
      Algumas vezes participamos de desfiles que nos deixavam com alto grau de emoção marchando garbosamente e a população nos aplaudindo. À frente iam os corneteiros e os tambores rufando e logo após os porta-estandartes e nós mais atrás. A saudação à romana era feita com o primeiro movimento do braço direito e mão estendida no prolongamento do braço batendo no peito na altura dos mamilos e depois num movimento circular a 90° para a frente. De vez em quando íamos acampar onde aprendíamos a armar a barraca, nós com cordas, além de outras atividades.

      Outras vezes como alunos e até ao 4°ano primário, vestidos com batas e de sapatilhas brancas, na maioria das vezes, éramos convocados para participar de algum evento religioso ou para prestigiar políticos. Como esses eventos eram ao ar livre e debaixo do sol escaldante era comum muitos dos alunos e até militares não agüentarem tanto tempo em pé e desmaios eram muito normais.
      Entre a Estrada de Catete e o Regimento de Infantaria existia, embora poucos de vós se lembram, um campo de aviação que servia para recepcionar alguma figura ou visitante.


      HINO DA MOCIDADE PORTUGUESA

      1.
      Lá vamos, cantando e rindo
      Levados, levados, sim
      Pela voz de som tremendo
      Das tubas, --- clamor sem fim.

      2.
      Lá vamos, que o sonho é lindo!
      Torres e torres erguendo.
      Rasgões, clareiras, abrindo!

      3.
      --- Alva da Luz imortal,
      Roxas névoas despedaça
      Doira o céu de Portugal!
      4.
      Querer! Querer! E lá vamos!
      --- Tronco em flor, estende os ramos
      À Mocidade que passa.

      Cale-se a voz que, turbada,
      De si mesma se espanta,
      Cesse dos ventos a insânia,
      Ante a clara madrugada,
      Em nossas almas nascida.
      5.
      E, por nós, oh! Lusitânia,
      -- Corpo de Amor, terra santa --
      Pátria! Serás celebrada,
      E por nós serás erguida,
      Erguida ao alto da Vida!

      (Repete: 1 a 4)

      6.
      Querer é a nossa divisa.
      Querer, -- palavra que vem
      Das mais profundas raízes.
      Deslumbra a sombra indecisa
      Transcende as nuvens de além...
      Querer, --- palavra da Graça
      Grito das almas felizes

      7.
      Querer! Querer!! E lá vamos
      Tronco em flor estende os ramos
      À Mocidade que passa.