Leituras Partilhadas

    • NATURALIDADE

      Europeu, me dizem.
      Eivam-me de literatura e doutrina
      europeias
      e europeu me chamam.

      Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
      pensamento europeu.
      É provável... Não. É certo,
      mas africano sou.
      Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
      desta luz e deste quebranto.
      Trago no sangue uma amplidão
      de coordenadas geográficas e mar índico.
      Rosas não me dizem nada,
      caso-me mais à agrura das micaias
      e ao silêncio longo e roxo das tardes
      com gritos de aves estranhas.

      Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
      Mas dentro de mim há savanas de aridez
      e planuras sem fim
      com longos rios langues e sinuosos,
      uma fita de fumo vertical,
      um negro e uma viola estalando.


      Rui Knopfli

      :cs Clica aqui para ouvir o poema :cs
    • COINCIDÊNCIAS

      A Lídia e a Augusta nasceram nos anos 25 e 27 numa terrinha pequena, eram vizinhas da mesma rua e foram sempre muito amigas
      Ali cresceram e desde muito jovens começaram a trabalhar

      Trabalhavam nos campos juntas com tantas outras pessoas, a Augusta cantava muito bem e alegrava o dia de trabalho com as suas lindas canções e todos gostavam de a ouvir
      Pediam-lhe que cantasse porque o tempo passava mais depressa

      Os anos foram passando, cresceram casaram e tiveram filhos
      A Lídia tinha 4 filhos, e a Augusta tinha 3 e esperava o 4.- também
      Manuel era o mais novo menino da Lídia e andava sempre com elas por os campos, com 2 aninhos de idade era pequeno demais para ficar sozinho em casa
      Era a alegria de todos e se divertia, mas faltava-lhe a companhia de uma criança como ele para brincar
      A Lídia dizia sempre à Augusta:
      - Augusta! Quando o teu bebe nascer e för uma menina vamos casa-los aos dois quando forem grandes
      A Augusta sorria-lhe e acenava com a cabeça que sim

      Pouco tempo depois nasceu então o bebe da Augusta e realmente era uma menina
      Elena tinha chegado para fazer companhia ao Manuel e juntos brincavam então enquanto as mães trabalhavam
      Manuel e Elena foram crescendo e brincavam sempre juntos, eram a alegria de todos os trabalhadores
      Chegaram à idade de Manuel ter feito 5 anos e Elena tinha 3

      A Lídia e a Augusta em breve se iam separar porque a Augusta ia transferir-se para outro sitio muito longe dali
      A despedida foi triste, mas elas sabiam que tinha de ser assim, que a vida dá muitas voltas e que cada uma teria de continuar a viver a sua
      Passaram muitos anos, e elas nunca mais se conseguiram ver e nunca mais souberam uma da outra
      A Elena esqueceu-se do amiguinho Manuel e logo fez novas amizades na nova terra onde vivia, e ao Manuel aconteceu a mesma coisa
      Passaram muitos anos e chegou o momento em que a Augusta regressou de novo à terra onde tinha nascido

      Elena já uma mulherzinha, se sentia muito triste quando regressou porque tinha deixado lá tudo o que a fazia feliz

      (continua)...
    • ( continuação)

      Elena tentava sempre convencer a mãe para voltarem a ir viver outra vez para onde tinham vindo, lhe dizia que não queria ali viver, mas com o tempo foi percebendo que isso não ia acontecer nunca mais
      Aquela terra não lhe dizia absolutamente nada, não conhecia ninguém e por algum tempo nem vontade tinha de sair de casa

      Passavam os dias e foi notando que ali toda a gente a conhecia, cada vez que a Elena saia à rua, as pessoas a chamavam da janela
      Curiosa perguntava à mãe como era possível as pessoas chamarem por ela quando ela passava pelas ruas
      foi então que sua mãe lhe contou que quando era pequenina andava nos campos com ela e com aquelas pessoas e que ali todos nos conheciam
      Aos poucos foi se habituando à ideia que ali teria de recomeçar uma nova vida, fazer novas amizades, e isso foi acontecendo aos poucos conforme ia conhecendo as pessoas

      A avó da Elena vivia a 2 quilômetros dali , era uma senhora já de idade e que ela nunca tinha visto em vida sua, mas dois dias depois de terem chegado àquela terrinha o pai levou-a a conhecer a avó, foi uma visita muito pouco familiar e foi bastante curta

      A semana seguinte Elena, teria de se ir matricular no liceu porque as aulas começariam duas semanas depois, então resolveu nesse mesmo dia fazer uma segunda visita à avö para aos poucos se irem conhecendo

      A casa era muito simples e pobre, mas a avó acendeu a lareira e fez-lhe um chá enquanto contava a Elena as coisas dali da terra
      Lhe foi mostrar uma burrinha que tinha ao lado da casa e lhe mostrou o seu quintal de volta da casa, lhe falou da sua falta de saúde e
      foi uma horinha bem passada e a despedida foi um pouco mais familiar daquela vez
      Ao lhe acenar com a mão para um ultimo adeus, a avó lhe gritou!
      Elena, volta a vir visitar-me tá bem?
      Prometido lhe gritou ela!
      Uma promessa tem de ser cumprida! E todos os dias às 5 da tarde Elena corria a visitar a avó à saída da escola que já esperava por ela à frente do portão de casa, 2 quilômetros todos os dia a correr para não se demorar muito



      (continua)